Atualização Crítica

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A série de vídeos 30 Anos do SHCU – Atualização Crítica apresenta relatos daqueles que, diretamente, fizeram parte do I Seminário de História Urbana, que aconteceu em Salvador em 1990. A série resulta dos esforços em torno da pesquisa ‘História Intelectual do SHCU‘.

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Ana Fernandes


Trecho da entrevista realizada em 23 de setembro de 2019, com Ana Fernandes (PPG-AU/FAUFBA), professora da Faculdade de Arquitetura da UFBA em 1990 e organizadora do I SHU.

“Eu acho que toda vez que você faz um enunciado, ele sempre vai encobrir um conjunto de elementos de realidade. Quanto mais você abre o enunciado, menos forte ele se torna e mais histórico, para explicar as coisas. Então, eu acho que tem aí uma relação que é extremamente importante e que – para a política – o enunciado é fundamental. Então, se você explicar ‘aconteceu por isso, aconteceu por aquilo…’ E aí, que eu acho, que tem um desafio intelectual, que é você conseguir manter a vitalidade das coisas, sem reduzir ou sem deixar de entender processos que estão fazendo com que aquilo aconteça.”


Heliodorio Sampaio


Trecho da entrevista realizada em 25 de setembro de 2019, com Heliodorio Sampaio (PPG-AU/FAUFBA), diretor da Faculdade de Arquitetura e vice-coordenador do Mestrado em Arquitetura da UFBA em 1990 e conferencista no I SHU.

“Tem sido debatido o papel da História dentro do processo de desenvolvimento? Qual é o papel da História, seja da cidade, seja do urbanismo ou dos dois, da arquitetura e do urbanismo? Ora, se o urbanismo tem por razão de ser – ou nasce -, historicamente, querendo atacar ou resolver (ou bem ou mal), os problemas urbanos, eu pergunto: qual é o papel da História dentro dessa brincadeira aí? O que vocês têm a oferecer? Porque se for apenas o conhecimento erudito do passado, eu acho que é muito pouco. Eu acho que a gente tem que começar a pensar um pouco mais prospectivamente sobre a importância e o papel da História para que não aconteça o que está acontecendo no Brasil atual, com esse grupo que assumiu o comando político do país, que os ‘caras’ ficam repetindo os mais absurdos paradigmas, que já estavam dados como natimortos na nossa cultura. Veja aí o discurso do presidente na ONU… É uma loucura aquilo! É um descalabro em termo de desconhecimento histórico, dessa história que estou dizendo. Se esses paradigmas voltam a reger as nossas políticas públicas, de um modo geral, imagine o retrocesso que a gente vai ter nos planos e nos projetos. Que é uma reflexão que o pessoal, talvez dessa área da História do Seminário de História [da Cidade e] do Urbanismo poderia começar a se preocupar em debater, em discutir isso com o pessoal que faz história, que produz história, que está mapeando essa história, enfim… É uma provocação que eu estou fazendo.”


Pasqualino Magnavita


Trecho da entrevista realizada em 07 de novembro de 2019, com Pasqualino Magnavita (PPG-AU/FAUFBA), coordenador do Mestrado em Arquitetura da UFBA em 1990, ano em que aconteceu o I SHU.

“Tem essa exaltação da História através dos gênios e das figuras. Por isso que eu não aceito muito esse levantamento: ‘é isso! fulano, ciclano, que fez a história.’ Para mim, num agenciamento coletivo isso se dissolve. Então, para mim, a História – inclusive, contemporânea -, ela seria uma história de resistência criativa. Quer dizer, não só resistir, mas resistir criando alguma coisa. Então, eu por exemplo, acho que há um estímulo na História enquanto genialidade. As figuras mais importantes que você precisa conhecer, precisa saber, precisa ler. Não é bem assim. Então, eu penso assim: mais a condição de anônimo, mais a condição de nômade, mas essa coisa da filosofia de Deleuze e Guattari.”

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Pedro Vasconcelos


Trecho da entrevista realizada em 11 de outubro de 2019, com Pedro Vasconcelos (UCSAL e POSGEO – UFBA), professor do Dptº de Geografia e do Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da UFBA em 1990 e conferencista no I SHU.

“As disciplinas têm níveis conceituais diferentes. Por exemplo, muitas vezes arquitetos vinham na Geografia atrás de base conceitual teórica, porque, às vezes (e Milton Santos é um exemplo), a gente entra numa discussão teórico-conceitual que nem se aplica muito, mas que é necessária. Já os historiadores são mais empíricos. Eles têm, claro (ninguém pode omitir Braudel e outros), teoria, têm discussão e tudo, mas o trabalho é tão grande de levantar arquivo e de trabalhar com esse material todo, que não está entre as preocupações maiores. Talvez aí haja um maior equilíbrio. Há uma possibilidade de troca, mas às vezes os conceitos têm sentidos diferentes, em diferentes disciplinas. Então, não é tão fácil. Agora mesmo, discutindo com Ana Fernandes neste grupo, o que é que ele está definindo? Porque a gente fala quase que um dialeto diferente. Mas, para mim, eu aprendi muito, me interessou muito. Porque também abre outros olhares, que a gente não tem. Até em escalas. A gente trabalha em escalas diferentes. Na arquitetura. Porque vocês têm a arquitetura e o urbanismo. Na arquitetura, vocês chegam ao nível da casa e da rua e tudo. Na Geografia tradicional era maior os estudos regionais. Os urbanos, passaram a ser importantes, mas não é exatamente ao nível da rua, do espaço público. Tem até essas pequenas diferenças, mas eu acho que são complementares. Dá para a gente se entender.”

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José Lira

Trecho da entrevista realizada em 04 de dezembro de 2019, com José Lira (FAU/USP), bolsista Aperfeiçoamento/CNPq em 1990 e conferencista no I SHU.

“O SHCU está fazendo 30 anos. Vamos para a 16ª edição: já é um label. Ou seja, já é uma grife. Não é um seminário temático, como ele se propunha naquele momento. O seu caráter experimental, naquele momento, se perdeu. Ele se tornou uma grife, uma coisa que tem status, prestígio, reconhecimento, uma tradição, um savoir-faire, uma compreensão do que é a coisa, que, sem dúvida, representa um amadurecimento, mas talvez seja a hora de se pensar para onde essa pesquisa nos levou, para onde ela está nos levando e que possibilidades podem vir a ser contempladas dentro de uma agenda que tenha como pilares a articulação entre a história e a cidade. Até que ponto essa rede de história da cidade e do urbanismo pode se articular com uma agenda crítica, uma agenda política, uma agenda teórica contemporânea? Até que ponto esse perfil de investimento, a partir de recortes geográficos, biográficos ou institucionais, já não precisam ser desafiados? Essas tradições de história a partir de recortes regionais ou municipais, ou a partir de recortes individuais, autorais, biográficos, ou a partir de recortes institucionais, não dê conta da problemática da produção urbanística e da produção urbana contemporânea. Talvez, a gente precise trabalhar para além dessas categorias, que estruturaram boa parte das pesquisas e boa parte das discussões – das mesas e das chamadas de trabalho – de nossos encontros.”

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Cibele Rizek

Trecho da entrevista realizada em 09 de dezembro de 2019, com Cibele Rizek (IAU/USP – São Carlos), professora da Escola de Engenharia de São Carlos da USP em 1990 e conferencista no I SHU.

“Eu acho que o Seminário da História da Cidade e do Urbanismo sempre teve um caráter de cartografar, numa espécie de radar: para onde é que está indo a pesquisa, que tipo de reflexão está aparecendo? E eu acho que esse caráter precisa ser mantido. Porque não pode virar só uma discussão da história e historiografia da arquitetura e do urbanismo. Não pode ser só uma discussão dessa natureza. Claro, a gente tem que fazer um esforço de trazer essa dimensão da reflexão tão rica, que a História e a historiografia nos dão, para o presente, para fazer uma história do presente, para, enfim, lançar sondas, radares… para entender o que está acontecendo. E não é pouca coisa o que está acontecendo. Está acontecendo muita coisa. E coisas que nos colocam uma missão muito instigante, muito importante, muito urgente de pensar. O que está acontecendo nas cidades brasileiras, hoje, precisa ser pensado, precisa ser nomeado. O que que é isso? É estado de exceção? É fascismo? É normalização do estado de exceção? O que é essa eclosão da dimensão miliciana nas cidades (com ou sem milícia)? O que é isso? O que que é o crime? O que são as igrejas evangélicas? O que é a guinada dessa direita vestida de movimento social que sai do armário em 2015? O que é isso? Então, eu acho que esse caráter ele é de radar, de prospecção, de lançar sondas. Eu acho que isso é fundamental. E, claro, isso tem que estar ancorado numa discussão histórica, numa discussão historiográfica, num conjunto de concepções do que significa fazer história e historiografia, porque também não há unanimidade. A história – nem os seus procedimentos – não são campos de unanimidade. Então, eu acho que, um pouco, esse radar prospectivo, para frente e para trás, é uma das grandes tarefas, por assim dizer, críticas, dos Seminários de História da Cidade e do Urbanismo.”

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Robert Pechman

Trecho da entrevista realizada em 10 de dezembro de 2019, com Robert Pechman (IPPUR/UFRJ), professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ em 1990 e conferencista no I SHU.

“O que é mais sério, mais importante, para mim, é que, às vezes, o espaço do que se chama ‘cultura’ [nos SHCU], ele fica um tanto reduzido. É como se fosse uma espécie de ‘confete’, que fosse um ‘tema simpático’, são ‘temas extravagantes’. E o Seminário, em geral, lida com materialidades e fala de uma cidade muito concreta. E nós queremos falar, deixar um pouco de lado, essa cidade concreta e falar sobre uma cidade onde se respira, onde se ama, onde existem frustrações, existem encontros e desencontros. Eu acabei de vir do México, onde fiz uma mesa com a Stella [Bresciani]. Meu tema, por exemplo, era sobre a questão da sociabilidade na cidade, vista a partir da obra de alguns pintores e reparei nesses pintores (puxei o fio) a questão do erótico – o erótico não no sentido genital, evidentemente -, no sentido de uma das formas de encontro na cidade. Então, esses temas que se desenvolvem em outros e mais outros e mais outros, ligados a uma ideia de sociabilidade, precisam penetrar mais, ter mais escuta.”

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Fania Fridman

Trecho da entrevista realizada em 10 de dezembro de 2019, com Fania Fridman (IPPUR/UFRJ), professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ em 1990 e conferencista no I SHU.

“Não é que o modo de pensar a história da cidade e do urbanismo tenha mudado nesses 30 anos. Claro, avançou metodologicamente, os dados coletados foram da maior importância, as fontes que foram descobertas… Agora, isso tudo vai depender da maneira que você coloca as suas dúvidas e por que você vai procurar tal informação ou não. Mas a forma como você trata isso vai depender, enfim, da pergunta que você faz. Portanto, eu não sei dizer se a forma de fazer história mudou. Eu acho que novos temas, novas fontes, novas perguntas e mais: eu acho que a realidade, também, ela te empurra. A realidade, também ela te empurra! A gente não vive só de moda que vem do exterior. Claro, tem um monte de gente que faz o que está na moda, mas eu acho que não estamos falando desse caso. Acho que a gente está falando de como a realidade implica em você estudar certas questões que estavam adormecidas. Porque certa coisa acontece hoje e a gente não sabe dizer porque. Isso é fazer história também.”

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Maria Stella Bresciani

Trecho da entrevista realizada em 18 de dezembro de 2019, com Maria Stella Bresciani (IFCH – UNICAMP), professora do Departamento de História da UNICAMP em 1990 e conferencista no I SHU.

“Eu acho que a importância do evento pode ser vista pela quantidade de eventos que vieram depois e pela quantidade de pessoas que se inscrevem em cada evento. Você vê que, hoje em dia, é difícil de acompanhar o que acontece dentro de cada um, porque acontecem sessões paralelas e você acaba não conseguindo ver tudo. Tem coisa que te interessa e você não pode ver. Então, eu acho que a própria forma como foi acolhido o evento e a ideia que o evento estava promovendo: essa necessidade das pessoas se reunirem e discutirem a questão da cidade e, depois, a questão do urbano, eu acho que essa acolhida mostra a importância do evento naquela época. A ideia que eles tiveram, não sei… precisaria conversar com a Ana para saber porque que eles tiveram essa ideia na época. Eu acho que a Ana sabia de outras pessoas trabalhando e eles acabaram propondo: vamos nos reunir para ver o que vai dar. Eu acho que deu esse resultado, que é excelente. Eu tenho acompanhado e acho que eu fui à maioria dos congressos. Eu acho que essa questão do urbano tem crescido. Mais até do que, às vezes, a questão da cidade. O que é até uma coisa muito boa. Se a gente pegar, por exemplo, os trabalhos da Virgínia Pontual, ela está trabalhando agora com o Baltar, trabalhou também com o Padre Lebret. Quer dizer, é muito essa questão de uma organização do urbano, onde entra muito a sociedade. Então, isso me parece uma coisa muito boa, do arquiteto não ficar só no desenho urbano.”

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Raquel Rolnik

Trecho da entrevista realizada em 24 de janeiro de 2020, com Raquel Rolnik (FAU/USP), diretora de Planejamento do SEMPLA (PMSP) e doutoranda em História Urbana no New York University em 1990 e conferencista no I SHU.

“É fundamental reler a história da nossa cidade do ponto de vista, digamos, daquela produção da cidade, que foi a produção jamais considerada, porque não foi a produção da da cidade dura, da cidade de pedra, da cidade permanente, da cidade regulada e da cidade projetada. Então, eu acho que tem todo um campo muito fecundo de uma leitura anti-colonialista dessa história e que vai começar a perceber e ouvir outras vozes. Vozes que foram pouco ouvidas. Isso já tem acontecido, já está acontecendo e eu espero que este Seminário, esse 16º Seminário, e especialmente sendo na Bahia, que é um lugar particularmente importante dessa produção no Brasil hoje, isso seja muito forte. Isso é um movimento muito forte na América Latina e, me parece, está perpassando todas as áreas. E a história urbana e do urbanismo, ela não pode estar fora disso também.”

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Carlos Roberto Monteiro de Andrade

Trecho da entrevista realizada em 08 de julho de 2020, com Carlos Roberto Monteiro de Andrade (IAU-USP São Carlos), professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da USP em 1990 e conferencista no I SHU.

“Temos o foco pela construção da cidade, propriamente. Quer dizer, a cidade como manufatura, como objeto técnico. Mas podemos pensá-la também como objeto plástico, como objeto estético em que outras dimensões afloram. Dentre elas, a própria questão dos encontros, da configuração de lugares. Então, nós estamos num campo de investigação que é de pesquisa, de levantamento de dados, de informações, etc. e acho que a gente já avançou muito nesse quesito. Conhecer um urbanismo do Brasil que estava capilar nas suas diversas manifestações, não apenas em capitais e não apenas em capitais principais – ou tidas como tal -, como São Paulo e Rio de Janeiro. Por um bom tempo, a historiografia do urbanismo se debruçou sobre essas duas cidades, praticamente. Alguma coisa, Salvador, porque foi capital e Recife. E ponto! Brasília, depois de Brasília, obviamente. Mas aí sempre, de certa maneira, com um compromisso apologético. Nós padecemos disto. A historiografia, sobre certos temas, são completamente contaminadas ideologicamente. É por causa de Brasília. As críticas a Brasília foram sufocadas. Se nós não revisarmos e fazermos aflorar essas críticas que foram feitas na época, retomando as críticas de Gilberto Freyre, que, diga-se de passagem, são hiper pertinentes. Anunciavam uma besteira que vinha a se fazer, já com toda a clareza de quem tinha voltado dos Estados Unidos e estava com o Planejamento Regional por trás, vendo que ‘estou pondo uma cidade nova no meio do mato e o que vai acontecer depois que eu construir essa cidade? Quem construiu vai para onde? Volta para acasa? Não tem sua região? Não parto da região? Não, faça o contrário! Lucio Costa defende exatamente o contrário: é a cidade que vai fazer a região. Não! Deveria ser o contrário. Sim!’ Com todos os malefícios que acabou provocando isso também. Então, acho que essas questões, o balanço delas, vai ser fundamental. Revisões a serem feitas, ainda, lacunas historiográficas que ainda temos, personagens pouco conhecidos, mas também o balanço daqueles que afloraram e que eram ilustres desconhecidos há 30 anos atrás.”